Blade Runner 2049 – Resenha

blade runner 2049 poster

Resenha do filme Blade Runner 2049

Ano: 2017
Título Original: Blade Runner 2049
Dirigido por: Denis Villeneuve
Avaliação: ★★★★★ (Excelente)

Foram necessárias mais de duas décadas para que Blade Runner, enfim e merecidamente, fosse reconhecido pelo grande público como o clássico e influenciador filme cult que sempre foi. Logo, revisitar uma obra como esta trinta e dois anos depois era um desafio e risco eminente, que o diretor Denis Villeneuve corajosamente assumiu. E, para nossa felicidade, foi mais do que bem-sucedido ao nos trazer Blade Runner 2049.

Bebendo da fórmula que consagrou o longa de 1982, dirigido por Ridley Scott – que está também aqui como produtor executivo, um ponto importantíssimo para a qualidade do novo filme – Blade Runner 2049 apresenta uma profundidade maior sobre as questões existenciais levantadas na obra original e os avanços tecnológicos em uma premissa de futuro semi-apocalíptica, onde a humanidade já é totalmente incapaz de existir somente por meio de seus próprios recursos.

blade runner 2049

A trama se passa trinta anos após o primeiro filme. Os replicantes passaram a ser perseguidos e indesejados, as indústrias Tyrell chegaram ao fim e o grande blecaute de 2022 acabou com quase tudo em relação aos registros antigos. Após esse período, o visionário e ambicioso Niander Wallace (Jared Leto) prosperou no domínio da tecnologia, erradicando a fome no mundo. Em 2036, Wallace dá início a uma nova era de replicantes, superiores aos antigos Nexus, e totalmente obedientes aos seus criadores.

Em 2049, somos apresentados a K (Ryan Gosling), um replicante que atua como Blade Runner para a Polícia de Los Angeles, caçando replicantes antigos, da era Nexus ou mesmo anterior, que passaram a ser considerados ilegais desde a instauração da nova ordem. Durante uma de suas investigações, o agente descobre algo que pode mudar todo o conhecimento da sociedade a respeito da ideia de perpetuação da raça humana e, consequentemente, dos replicantes quanto à própria natureza de suas existências.

blade runner 2049

A ideia de futuro apresentada em Blade Runner 2049 é fascinante e soa muito realista em diversos aspectos. Se, em 1982, Blade Runner apresentou algumas ideias que hoje são realidade (ou ao menos em desenvolvimento) para nós em 2017, como a criação de órgãos em laboratório e a incubação de vida em sistemas de reprodução artificiais, 2049 nos faz imaginar que a vida humana poderá ter mesmo, no futuro, total dependência do avanço da bioengenharia para a preservação da espécie e manutenção do planeta, cujos recursos naturais parecem cada vez mais próximos de se extinguirem.

Há, por exemplo, vislumbres de como determinados locais poderão ser completamente varridos por radiação e erosão, além da distinção de cidades próximas que terão condições sociais e climáticas totalmente opostas. Enquanto Los Angeles continua como o principal polo do filme, onde observamos a tecnologia avançada com os carros voadores, as projeções holográficas e a interação de interfaces entre replicantes e inteligências artificiais, a cidade está sempre sob chuva (o que dá aquele ar noir e filosófico do primeiro filme). Vegas, por outro lado, está soterrada sob areia e virou ruínas, enquanto San Diego tornou-se um verdadeiro lixão a céu aberto.

Acima das questões tecnológicas está, mais uma vez, o aspecto filosófico-existencial que faz de Blade Runner algo único, e não poderia ser diferente Blade Runner 2049. O agente K (sob ótima atuação de Gosling) é um personagem que transmite a apatia de uma criatura que, a princípio, programada para que acreditar que serve apenas para obedecer ordens, não transmite emoções plenas e apenas vive sistematicamente. Mas, de acordo com as descobertas que faz, acaba questionando sua origem e motivações, descobrindo que há uma complexidade muito maior quando falamos de dar vida a algo que simula um ser humano. A “humanidade” de K também é expressa, em momentos de incrível beleza no filme, em sua relação com Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial capaz de acompanhá-lo a todo momento, mas que sofre com a incapacidade se materializar e amá-lo fisicamente.

blade runner 2049

O longa é repleto de diálogos memoráveis, como o monólogo de Wallace sobre o sonho de alcançar o Éden, e pequenos momentos em que apenas a expressão no olhar dos personagens diz mais do que qualquer coisa. Destaque para Luv (Sylvia Hoeks), serva de Wallace que representa características exatamente opostas a K, mas que, assim como o agente, compreende que é mais do que uma simples criação de bioengenharia e tenta, ao seu modo, encontrar o significado de sua vida. Harrison Ford também está de volta ao papel de Rick Deckard e sua aparição é recheada de nostalgia, além de trazer à tona a verdade que faz a união definitiva entre as tramas do primeiro e segundo filme.

É importante ressaltar que a experiência de assistir Blade Runner 2049 só é completa a quem assistiu ao seu antecessor, pois não trata-se apenas de inclusão de referências ou reaparição de personagens, mas de uma expansão de universo, cujas características-base estão enraizadas na primeira produção. Essa experiência também pode ser ampliada em alguns detalhes assistindo aos curtas lançados recentemente, que trazem algumas pílulas dos fatos mencionados no filme (confira-os aqui).

blade runner 2049

Quem espera apenas por uma obra futurista de ação ou um thriller sci-fi com ares noir pode se frustar ou se surpreender, pois Blade Runner 2049 vai muito, muito além. É um épico da ficção-científica que, ao longo de suas 2h43, nos leva por uma jornada de imersão e questionamento embalados por uma trilha sonora impecável, com um ritmo de condução distribuído perfeitamente entre ação, suspense e drama. Blade Runner 2049 é mais que uma sequência; é a obra definitiva sobre aqueles que “são mais humanos que os humanos” e que, talvez, assim como seu predecessor, só tenha o devido reconhecimento através do tempo.

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