Mãe! | Resenha

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Ano: 2017
Título Original: Mother!
Dirigido por: Darren Aronofski
Avaliação: ★★★★★ (Excelente)

Mãe! é o novo filme do diretor Darren Aronofski (Réquiem para um Sonho, Cisne Negro) que logo de cara á para afirmar que irá render boas discussões. Isso porque a obra tem uma narrativa peculiar que foge um pouco do comum do qual estamos acostumados. Na trama temos uma casal, interpretados por Jennifer Lawrence e Javier Bardem. Os dois vivem em uma casa isolada, cercada apenas pela natureza. A casa está passando por reformas no qual  Lawrence está se encarregando disto, rebocando cada canto e dando sua cara  e vida a casa. Bardem é um poeta que passa por uma fase difícil, pois está há tempos sem criar nada. Não consegue superar esse bloqueio criativo. A relação do casal é aparentemente normal, até que chegam duas pessoas que batem à porta da casa deles, estes sendo Ed Harris e Michelle Pfeiffer. A partir deste acontecimento, tudo muda na vida deles. E talvez a do espectador também.

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Aronofski traz aqui consigo uma assinatura muito pessoal no seu novo filme. A premissa parece bem básica (e no fim das contas, ela é mesmo) no entanto, isso não significa que ela seja vazia, aliás, muito pelo contrário. Em Mãe! temos uma narrativa instigante e por vários momentos perturbadora e incômoda. Mas este incômodo não é algo ruim. Na verdade isso é ótimo e vamos explicar o porque. O filme poderia ser classificado como um thriller psicológico mesclado com elementos envolvendo simbolismos, principalmente de cunho religioso.  Conforme a trama se desenrola, podemos observar o quanto a personagem de Lawrence se doa sem limites ao Poeta. Ela está ali ao lado dele para o que der e vier. Mas infelizmente isso não é recíproco. Com a chegada dos novos personagens, muitas questões começam a ser levantadas e por muitas vezes não são respondidas, e aos poucos as rupturas do relacionamento do casal vão ficando cada vez mais evidentes. Em meio a essas situações que cada vez mais vão se tornando tensas e com clima pesado, Aronofski vai sementando e nos deixando diversas pistas sobre o que a sua obra de fato quer falar. Ou melhor, quer gritar.

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Ao espectador pode parecer um drama de relacionamentos (o que não deixa de ser), mas um olhar mais cuidadoso, pode desvendar e tirar o véu da verdadeira face d obra, que ganha outro níveis. E assim o título Mãe! ganha ainda mais força do que já tinha. Os simbolismos estão presentes quase a todo instante, eles estão espalhados por toda a parte. Há momentos também de severas críticas  a própria humanidade que causa dano a ela mesmo, assim culminando em guerras, fome e desolação. Isso podendo ser ocasionado por um fanatismo (religioso ou por alguma referência) que os deixa cegos e inconsequentes, sem perceberem o dano que estão fazendo a si mesmos.

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O filme tem diversas camadas que se analisadas com cuidado e calma, podem vir a trazer diversas reflexões. No que tange a parte técnica, o filme também não deixa a desejar. A câmera sempre próxima do rosto de Lawrence, close nos seus olhos e suas feições, nos faz sentir o que ela está passando, toda a sua inquietação, desespero, amor. E esse tipo de filmagem deixa o clima do filme ainda mais denso do que já é.  Seria como se realmente estivéssemos dentro daquela casa, respirando aquele ar pesado. A trilha sonora e as cores utilizadas só ajudam para que toda essa ambientação fique ainda mais tensa. Simples momentos ganham grande importância, em outros o silêncio parece ensurdecedor.  Tudo é muito bem encaixado dentro da obra. Bardem e Lawrence estão bem e entregam aquilo que seus personagens precisam, assim como o restante do elenco.

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Mãe! é um filme que de certo vai fazer algum estrago no espectador e mais uma vez, isso não é algo ruim. O impacto das cenas e das proporções que a obra toma são catastróficas e inevitavelmente vai nos fazer pensar em quesitos como relacionamentos, humanidade e por fim a vida em si. Aronofski nos entrega um longa que possivelmente será lembrado daqui a muito tempo, pois se trata de um filme pra lá de corajoso. E além de tudo, é uma obra que tem muitas coisas subjetivas, que dependendo da bagagem de cada pessoa (isso no âmbito de experiências pessoais, religião e etc) o filme pode ganhar um significado diferente. Não dá pra afirmar tudo que ele tem, porque isso vai variar mesmo de pessoa pra pessoa. Mas no fim das contas, quando um filme consegue trazer um impacto deste nível ao espectador, isso por si só já é uma grande experiência.

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Com uma metáfora “simples” (usando uma casa) o filme consegue ser uma perfeita alegoria  (principalmente no que se aplica em algumas referências à bíblia) e assim aproximar o espectador para a mensagem mais importante que ele quer passar. A humanidade não cuida de sua morada mais incrível, que está sempre a nossa disposição e estamos a cada dia jogando tudo fora e nos apropriando sem pedir permissão, destruindo-a sem freios devido a tantos fatores fúteis. E em algum momento, apesar do grande amor de mãe (que é o mais puro amor) que ela tem por nós, isso será cobrado em algum momento. E não vai sair barato. Mas sempre teremos onde recomeçar desde que tenhamos essa joia rara que é o amor materno.

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